quarta-feira, 29 de junho de 2011

A Dor do Recomeço


            
            Uma leve chuva ia de encontro ao solo lá fora. Coloco a xícara de chá na janela, puxo uma cadeira, sento-me, e fico quieto com as mãos entre as pernas para o frio não me ver. Alguém bate a porta, não queria abrir, pois já sabia quem era. E ela sabia que eu estava ali, sem minha permissão empurrou a porta e entrou.
                - Resolveu voltar? – perguntei sem olhá-la.
                - Eu não disse que voltaria, mas desta vez é para ficar.
                - Fique a vontade. – falei não dando muita importância.
                - Não irá questionar minha presença aqui?
                - Não, - ainda sem olhá-la - é melhor que seja assim.
                - O amor já se foi, não é?
                - Sim, junto com a alegria. Acabaram de sair, eu sabia que sem eles iria me restar você.
                - Já chegou meu embrulho?
                - Que embrulho?
                - Um presente! Mandei pelo correio, já deve está chegando.
                - E o que é? – perguntei mantendo os olhares na xícara e passando o indicador na borda lentamente.
                - Descobrirás quando chegar...
                Preferi não a olhar e ver na verdade quem estava ali, mas eu já havia ouvido aquela voz antes e sentido aquele perfume.
                - Você sabe quem sou? – perguntou a voz por trás de mim.
                - No momento não importa saber quem és.
                - E como deixas entrar em sua casa quem ao menos não sabe o nome?
                - Eu deixei? Nem a porta eu abri para você.
                - Mas também não me pediu para sair...
                - Pouco importa você está ou não aqui. Algumas coisas já andam perdendo o valor.
                Alguns minutos em silêncio.
                - Você acredita na...
                - Olha - interrompi – você não devia está calada?
                - Mas por quê?
                - A solidão geralmente se alimenta do silêncio.
                - Mas é aí que se engana. Eu não sou a solidão, sou a tristeza... A sua tristeza!
                Olho para trás e visualizei a sala vazia e escura: chorei.
                - Olha, parece que seu embrulho chegou... E parece que comprei o tamanho exato para teus olhos. Fiquei indecisa na cor e no sabor. Gostou dessas? Se não...
                - Ah! Chega! – falei não controlando minhas lágrimas – porque brincar tanto comigo assim? Não tem sentimentos?
                - Não, eu sou um!
                - Não tem coração?
                - Não, sou como os vírus, dependo do teu corpo para existir.
                - Chega! – e as lágrimas continuaram a cair.
                - Nossa! Parece que a raiva entrou pela porta e não vemos. Vou deixá-la conversar com você antes da solidão chegar. Mas nem adianta sorrir, vou ficar aguardando ali na sala de estar.
                A chuva lá fora continuava a cair. Mesmo com a janela fechada meus braços estavam molhados. Meu chá estava frio, e meus poros se arrepiavam. O vento entrava pela fresta da janela e movimentava as cortinas... E ainda de cabeça baixa, chorava.
                - Também não sei! – resmungou a raiva baixo.
                - Não sabe o que?
                - Porque eu sempre venho junto da tristeza...
                - Basta não vir...
                - Não dá, ela sempre deixa as pessoas iradas consigo mesma. Junta ela e a recordação e alguns de seus presentes... Sempre ando com elas, mas só me atraso pros eventos e nunca fico até o fim. Quebro um copo, dois talvez, e vou...
                - Vai para onde?
                - Se instalar no coração de quem estava me sentindo.
                - Então você não vai. – conclui mantendo os olhares em meus pés.
                - Vou sim, é que lá outros sentimentos sempre me vencem. Só faço estragos aqui fora. Porque mesmo você está assim?
                - Para! – gritei – sai da minha casa. Sai de perto de mim... – e derrubei minha xícara ao chão não me importando se o chá iria manchar meu carpete e me lancei ao chão em seguida entre lágrimas – Ai, que dor! Como tua ausência me fere, machuca-me e me faz sofrer...
                Já não chovia lá fora, somente em cima de meu carpete azul uma chuva originada de meus olhos. A Raiva já havia saído de perto de mim, e quando levantei meus olhos vi-me acorrentados a outros três.
                - Quem são vocês? Porque essas correntes?
               - Eu sou a Solidão, esta é a Recordação e a outra a Dor. Sempre andamos juntas, amigas inseparáveis sabe? - e sorriu como se fosse de mim, mas era só não queria acreditar que realmente fosse.
                Ainda ajoelhado ao chão, chorava. Já não podia me controlar mais, era como se todos ali juntos me faziam de marionete.
                - Ah! Porque viver assim? – perguntei os olhando com piedade – Porque, meu Deus? Por que...
                - Conta logo! – ouvi a Raiva cochichando no ouvido da Solidão.
                - O que estão escondendo de mim? As correntes me ferem, deixam marcas em meu corpo... Retire-as, por favor!
                - Não! Iremos te fazer companhia para não se sentir tão só. Mas respondendo sua pergunta... Você não vive mais.
                - Como assim não vivo? Eu não estou aqui?
                - Está, claro que está! Mas quem tem tristeza, raiva, solidão, recordação e dor vive? Quem vive sem amor?
                Não havia palavras...  Aqueles sentimentos estavam me vencendo, e não tinha como aquilo deixar de acontecer. Levantei, fui correndo ao guarda roupas comecei a folhear um álbum de fotos e logo após a rasgá-las. Se elas não existissem não haveria lembranças, nem tristeza, nem dor... Logo, ouço risos, alguém zombava de mim.
                - Quanto ódio já possuiu seu coração! E como apagará as lembranças da mente? Do sabor daqueles beijos? Do calor daquele abraço? Como? – alguns sorrisos baixos – Será melhor preparar a casa. Iremos repousar com você...
                - Sem fotos não haverá meio de lembrar-me... – respondi.
            - Tem como rasgar um perfume ou uma saudade? Ah! A saudade ainda não chegou, não é? Ela sempre vem pelas frias madrugadas. Vocês irão se dá bem e com certeza ela irá querer habitar por aqui também...
                - Vou expulsar todas vocês daqui. Saem! Vão embora... Agora!
                - É impossível vencer-me sozinho. Eu sou um sentimento, não estando aqui hoje, poderei estar amanhã ou depois e que diferença isso faz? Eu vou e volto, vou e volto... Nunca morrerei para você, até você morrer. Como irá me expulsar? – disse a tristeza, vindo da sala.
                - Onde está a alegria? O amor? A felicidade? – perguntei.
                E todas começaram a sorrir de mim.
                - Boa pergunta... Onde estará? Acho que resolveram te abandonar como fez sua amada.
                - Não a amo mais!
                - Cuidado, se enganar é muito arriscado. – disse a solidão.
                - E por quê?
                Derrepente surge algo pequenino pela porta e era o amor.
                - Ele sempre aparece mostrando que estais mentindo, abra a janela que a mentira vai entrar como pássaro.
               - Ah! Que confusão! Por que isso, meu Deus? – fecho meus olhos e chorava não tendo mais lágrimas para liberar.
                Ao abri-los vejo-me postado ao chão, rodeado por inúmeros sentimentos e fotos rasgadas. Ouço a porta do apartamento bater, como se estivesse entrando mais alguns deles ali.
                E vejo uma mão surgindo entre os sentimentos que me rodeavam e me aprisionavam, e conseguindo atravessá-los os desfazendo. Agachou-se perto de mim, abraçou-me permitindo que minhas lágrimas pudessem ser liberadas, de forma que dissipasse com toda aquela dor em seus ombros. 
                Não era um sentimento que entrava ali, era uma pessoa que conversava e falava palavras tão belas para aquilo se encontrar com o fim...
                - Pode chorar, meu amigo! Assim que soube do que aconteceu vim correndo para te ver...
                Ouço a porta bater: era a solidão que se retirava indignada.
                - Não fique assim, meu amigo. Tudo isso vai passar, você vai ver. Somente mais uma luta, mas você vai vencer. Conte comigo para te ajudar, sempre estarei do teu lado. Não importa o que aconteça, sempre estarei aqui...
                - Se o amor é tão bom, porque ele nos permite amar quem não nos ama? Se ele nos faz tão bem, porque sofremos e sentimos sua dor? Se ele veio para unir, porque existe desunião? Se existe para todos, porque nunca chegou a mim? Se o amor é amor e sem ele nada sou, porque agora tenho medo de amar? Se existe amor, porque existe o ódio, a traição, o rancor? Por quê?
                - Tudo isso existe para que eu esteja aqui agora, meu amigo, te mostrando quem nem tudo é o fim... Eu te amo, e é este o amor verdadeiro. O amor que nos faz bem, que une, que está em você...
                A porta novamente bate: a raiva já não estava na roda e a mentira parecia nem ter entrado, a verdade havia chegando antes.
                - Não sei mais o que fazer! Dê-me uma luz, eu preciso sorrir... Não sei se irei suportar! Não sei... – falei não contendo minhas lágrimas e ainda com minha cabeça em seus ombros.
                - Vamos sair. Deixe essas fotos, amarre esses sentimentos em um saco e os deposite no lixo. Você possui um valor maior que tudo isso que você sente e deseja fazer. A chuva já se foi, a Clarinha está a nossa espera. Vamos sair?
                - Não! É melhor eu ficar por aqui...
                - E quebrar mais xícaras? Rasgar mais fotos e ficar sozinho chorando lembrando-se de como foi enganado em um passado não tão distante? Jamais te deixarei só, meu amigo, ficarei com você!
                Sorri, sem alegria.
                - Muito obrigado, minha amiga! Eu preciso de sua ajuda para vencê-los.
                A porta mais uma vez emitia seu som: agora restava uma dor e uma tristeza não tão fortes como antes, nem tinham voz... Existiam outros sentimentos mais fortes que chegaram junto com minha amiga. Estes não vagavam pela casa, nem conversavam comigo. Entraram calados, se instalaram em meu coração preenchendo um vazio tão grande que existia ali.
                Levantei minha cabeça de seus ombros, olheis em teus olhos claros e recebi um abraço sem palavras, sem juras de amor eterno e sem beijos. Mas o melhor e mais verdadeiro abraço, exatamente o que eu precisava. Naquele instante percebi porque existe amor.
                - Vamos? – perguntei.
                - E aonde quer ir, meu amigo?
                - Para a felicidade!
                  E sorri, observando a alegria brincando de roda, com o amor, na sala de estar.
Por: Wesley Carlos

6 comentários:

  1. Wesley eu ameiii esse texto ! fala coisas lindas e momentos tristes da nossa vida mais tbm diz uma coisa que com nossas amizades podemos mudar o quadro da nossa vida ! Obrigada Por tudo meu amigoo eu te amooo

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  2. Mais um texto profundo amigo Wesley... meu querido já foram selecionadas as 8 poesias da primeira fase do 5º Pena de Ouro, e a tua está selecionada, por isso já podes ir no Ostra e pegar o selo Trovador Lírico por ser um dos selecionados. Beijos e sábado apareça no Ostra para votação... e agita a galera :-)

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  3. alô meu poetinha vim te avisar que tua participação no Ostra já começou, então agita a galera e não se esqueça de trazer para cá o premio trovador lirico.. beijinhos doces!

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  4. Confesso Wesley que quando vi o texto fiquei um pouco com preguiça de ler...Mas de repente o texto me convidou a ser lido e foi indo, quando eu já estava no final sendo levada por esses sentimentos..."A dor do recomeço" é exatamente difícil...mas com amigos que estejam ao nosso lado fica fácil...Adorei...bjs...

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  5. Seu texto é muito profundo.A vida é cheia de sentimentos, e sentimentos são coisas dificéis de controlar, eles simplesmente vêm e vão, não batem na porta, não pedem licença. Invadem, machucam , as vezes nos derruba e deixa no chão sem ação. Acho que por isso eles sejam tão perfeito, é triste isso, mas é a realidade.Parabéns pelo texto. gostei muito! Um Abraço!

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  6. Carinhosamente venho desejar
    uma linda semana.
    e muitos sonhos realizados.
    beijos e beijos,Evanir.
    è com prazer que sigo seu blog encontrei você na madrinha Lindava.

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Gostaria de agradecer, por você ler e comentar nos artigos postado neste blog, pois escrevo com amor e fico feliz quando vejo um pedaço da Essência de vocês aqui em baixo. Quando você comenta me dá a direção a qual devo tomar, o que tenho que escrever e/ou esclarecer.
A Essência agora está em você: Comente!!
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