sexta-feira, 14 de abril de 2017

Amanhecer no entardecer



Algumas notas saltavam da partitura amarelada e pisavam firme sobre as teclas de um piano rústico. Era uma tarde fria de inverno e Laura se concentrava em observar os saltos que seus dedos conduziam. Entre suspiros e um olhar suave, seus pequenos lábios balbuciavam letras que outrora escrevera para registrar os novos sentimentos que vigoravam: a saudade de uma vida que não vivera, a tristeza de uma felicidade rejeitada e o vazio de um amor que transbordava.
As horas passavam e a noite começava a entrar, junto a um vento frio, pela fresta ainda aberta na janela. Laura se levanta, fecha a pequena abertura, puxa a cortina e se desloca até a cozinha para pegar uma xícara de chá. Havia somente o som do silêncio buscando espaço junto ao barulho emitido por seus passos. Havia somente o respirar ofegante de Laura, o cheiro quente do chá e o abraço do agasalho de lã. Havia somente um coração dolorido, um pulsar de arrependimento e poucas lágrimas não choradas. 
Retornou até a sala e indo de encontro ao piano ficou o observando por alguns minutos com a xícara próxima ao queixo. O ambiente estava escuro, somente um pequeno abajur era o responsável pela iluminância da pequena área de estar. Laura se desloca até o sofá, apoia seu pescoço no encosto e fixa o olhar ao teto.
- Até quando ficará assim? - pergunta a si mesmo deixando uma pequena lágrima, outrora presa, vir à liberdade. 
Fecha os olhos suavemente e permite que lembranças se projetem sobre sua pálpebra. As lágrimas continuavam formando caminhos em seu rosto e beijando seus lábios. Abriu os olhos por segundos, passou os dedos na intenção de estancar as lágrimas e retomou até o piano. Seu coração pulsava forte, as notas novamente começavam a saltar, desta vez, mais organizadas e harmônicas. O silêncio se despedia e seguia ao som da voz de Laura, que com outras lágrimas, desabafava:
- Por tempos teu amor me encontrava e eu fugia. Por tempos era o meu cheiro que você queria. Foram horas dedicadas a insistência de me ter. E eu calada, corria, não queria contigo viver. Por tempos era o meu sorriso que te acalentava. Por tempos era alimentar minha felicidade que você queria. Foram horas dedicadas a declarações não correspondidas. E eu gritando, te negava, nos negava. E hoje, com tanto amor no peito, é o vazio de minha soberba que trás a tristeza da felicidade que rejeitei, da vida que a mim neguei, por amar quem o amor não conhecia, tendo a disposição o verdadeiro amor que carecia. Sem saber sofri por outro querer; e, ainda sem saber, hoje é por querer você. Perdoe todos os nãos que te dei e, por favor, os devolva-me para eu aprender. Não se afaste tanto como tem feito, tenho saudade do amor que neguei. Perdoe e se achar que vale a pena: tente, por favor, somente mais uma vez. Estou aqui, estou aqui., estou aqui...
Entregou a si um novo suspiro. Forrou as teclas com seu lenço de veludo, abaixou a tampa superior, desligou o abajur e se encolheu ali mesmo no sofá. De olhos fechados, era como se sentisse que uma pequena esperança começava a amanhecer em seu entardecer de silêncio.
A campainha toca uma, duas, três vezes; mas era tarde e Laura já adormecia. Detrás da porta era ele que voltava, insistente, para tentar pela última vez. Sentou sobre o velho carpete, encostou as rosas com cuidado para que não amassasse suas pétalas e ali adormeceu.

6 comentários:

  1. Confesso que você provocou lágrimas, lágrimas essas que representam o quanto você escreve com sensibilidade! Você tem o poder de tocar o coração! Parabéns pela postagem!

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    1. Olá, Viviane! Agradeço o carinho da visita e pelas palavras tão animadoras... Sua presença e leitura são muito importantes!

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  2. Olá, Wesley,

    Há muito tempo não visitava este espaço. É muito bom ter você de volta, e ainda mais com um belo texto.

    Um abraço, paz e bem

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    1. Grande Geraldo!

      É sempre motivador te ter por aqui, um abraço!

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  3. Olá Wesley, boa noite!

    Que inspiração!
    Um conto primoroso cheio de sentimentos, lindamente escrito.
    Desmontei te lendo! Uma sensibilidade imensa vertida neste texto.
    Achei magnífico!
    Quando você publicar seus contos eu quero adquirir um. Combinado?
    Bom fim de semana!
    Abração!

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    1. Ola, Smareis!

      Sua visita é sempre bem vinda! Agradeço pelo tempo dedicado a leitura e pelo carinho das palavras. Caso um dia isso realmente ocorra, (risos), então fica combinado.

      Um abraço,

      Wesley Carlos.

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