segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A Última Seção


               Faltava quase uma hora para a bilheteria de o cinema abrir, e por sorte, era o décimo primeiro da fila. Mesmo com o frio a estreia do filme norte-americano estava sendo aguardada por quase todos do bairro.
                O vento trazia gotas geladas de chuva, aumentando o frio, obrigando-me a retirar o casaco amarrado na cintura e vesti-lo.  Algumas pessoas se cobriam com a capa plástica e outros reclamavam baixo da chuva que começava a cair.
                Encostei-me a parede abaixo do velho toldo verde do cinema e fitei o relógio seguindo os ponteiros. Do outro lado da rua, as lojas já abaixavam suas portas, a chuva que ameaçava cair havia escurecido a tarde de sábado fazendo as luzes dos postes acederem mais cedo.
                O som do trovão foi só uma indicação que as comportas do céu se abriam liberando a chuva forte. Uma minoria já tinha desistido da fila e correndo a deixava para se refugiarem no calor interno de suas casas.
                Retirei os olhos por instantes do relógio e voltei com os olhares à fila. Virando a esquina surgia uma jovem com um casaco rosa, segurando uma sombrinha com uma das hastes quebradas e na outra uma nécessaire preta. Um vento forte foi contra a jovem deixando sua sombrinha ao inverso, o cabelo liso se batendo e ela na chuva. Apressada veio e se posicionou no final da fila.
                O barulho da porta da bilheteria despertou o primeiro da fila que deu alguns passos para comprar seu ingresso, a chuva ainda caía e o frio aumentava. Olhei a jovem novamente que olhava para a sua nécessaire aberta procurando algo. Caminhei conforme a fila diminuía e cumprimentei a atendente:
                - Boa Tarde! Meia entrada, por favor. – falei apresentando a carteirinha da faculdade e dando-lhe a quantia necessária.
                - Boa seção, jovem! – respondeu sem me olhar e entregando-me o bilhete.
                Entrei na sala que o bilhete indicava e subi para sentar-me na última fileira. Recostei-me na cadeira acolchoada, cruzei os braços e o ambiente aquecido fazia-me fechar os olhos e respirar profundo. Comprei o saco médio de pipoca com refrigerante e desliguei o celular. Aos poucos foram chegando às pessoas, e enquanto a tela se desprendia e descia suavemente do teto, vinha a jovem e sentou-se na cadeira a minha frente.
                Fiquei observando o modo que ela se movimentava e pude a ouvir resmungar baixo do frio e do casaco aparentemente molhado. Levantei-me e, sem entender o motivo, fui e sentei ao lado da menina. Olhei por instantes em seu rosto fino, ela me olhou e sorriu, e sem retirar o canudo do refrigerante da boca, devolvi o sorriso e voltei com os olhos à tela que já estava posicionada e refletia a luz lançada sobre ela.
                Logo após o trailer e do narrador dizer o título do filme o som causado pela primeira explosão já fazia nascer expectativas para o final.
                - Este filme parece que será ótimo! – disse empolgada a jovem ao meu lado.
                - Espero! Enfrentar o frio, a chuva e perder dinheiro não seria muito legal. – respondi sorrindo e olhando para seus lábios pequenos e brilhosos.
                - Tem razão, prazer Carla!
                - Prazer Diogo!
                Ela sorriu e voltou com os olhares a tela, continuei fitando os trações de seu rosto e observava o seu piscar de olhos calmo e atencioso. Ela volta com os olhares a mim e move o cabelo para o outro lado do ombro.
                - Então... Bom mesmo o filme não é?
                - Ah! Desculpe pela fixação do meu olhar. Eles insistem em aproveitar o máximo do que lhes agradam.
                Ela sorriu e desviou o olhar de volta a tela.
                - Só não quero que perca o filme, que por sinal está ótimo. – disse sem me olhar.
                Posicionei-me melhor na cadeira e olhei para a tela. Coloquei meu braço no apoio da cadeira, recostei minha cabeça na poltrona e comecei a beber meu refrigerante sem gás e a comer minha pipoca murcha.
                - Aceita?
                - Não, obrigada! – respondeu ainda evitando o olhar – Posso te fazer duas perguntas?
                - Sim, claro! – falei mirando meus olhos nos dela.
                - Porque me observava na fila?
                - Eu não lhe observei, só olhei por alguns instantes como olhei para todos os outros.
                - E porque mudou de lugar?
                - A visão daqui é mais ampla... – respondi.
                - Ah! Tudo bem...
                - Agora posso te fazer somente uma? – perguntei.
                - Faça! – respondeu fitando ainda a tela.
                - Porque essas perguntas?
                - Um pequeno instante de visão ampla me levou a lhe perguntar, poderia ter feito com todos os outros.
                E sorrimos juntos e durante este período de demonstração de alegria nos olhamos e ficamos calados. Voltamos a observar o filme e evitei olhá-la novamente.
                - Ficou tão sério derrepente. – ela fez o comentário.
                - Não quero atrapalhar sua seção...
                - E porque atrapalha a seção dos teus olhos e dos meus ouvidos?
                - Não entendi... – respondi sem olhar e percebendo que ela me olhava.
                - Você está impedindo teus olhos de me observar, e dos meus ouvidos de te ouvir.
                Sorrimos!
                - Simplesmente porque meus olhos e seus ouvidos não querem te atrapalhar.
                - Porque tem tanta certeza disto?
                Ignorei a pergunta e correspondi ao seu olhar. E fitamo-nos uma ao outro por um longo instante. Não pensava em nada, somente observava...
                - Veio realmente ver o filme? – perguntei.
                - Na verdade, vim para me distrair. Não ando muito bem com a vida, digamos. Uns probleminhas pessoais me trouxeram aqui.
                - Sei que ainda é cedo, mas se precisar de algo...
                - Obrigada! Você me fez sorrir e eu precisa disto.
                - Fico feliz...
                Ela puxou meu braço e deitou de leve em meu ombro e balbuciou algo. Terminamos de ver o filme de forma que nunca havia começado, nem um dia terminado. Todos se levantavam e ela ficava lendo os créditos finais ainda encostada em mim, percebi que chorava.
                - Desculpe! Mas eu precisava deste ombro hoje.
                - E terá sempre que necessitar e quiser...
                - Sempre?
                Uma dúvida surgia naquele instante e não entendia o porque do diálogo, das trocas de olhares e das últimas palavras ainda em lógica e preferi ficar quieto.
                Ela levantou a cabeça e me olho nos olhos. Nossos corpos foram se aproximando lentamente fechei meus olhos e nos abraçamos. E após a soltar ela sorriu.
                - Nunca me senti tão bem após uma seção.
                - Eu também! – respondi no espontâneo e me convencendo após.
                - Desculpe pela postura indelicada.
                - Não houve indelicadeza nenhuma por aqui. Sinto-me bem por ter lhe ajudado de alguma forma e você se sente bem por ter recebido a ajuda que necessitava neste instante.
                Colocamos-nos em pé enquanto passava o final dos créditos do filme. Fomos descendo em silêncio e antes de sairmos da sala virei e ficamos um de frente ao outro.
                - O que foi? – ela perguntou.
                - Nada...
                E aos poucos fui me aproximando, segurei em seu queixo tão minúsculo, levantei um pouco sua cabeça, fixei meu olhar ao dela. Ela se mantera calada e eu tremulo.  Fechei meus olhos e carinhosamente impulsei meus lábios de encontro ao dela. Sentia sua respiração ofegante e o toque de suas mãos frias em minha cintura.
                Desencontramos nossos lábios e sem dizer nada ficamos nos olhando antes do abraço. Encostei-me na parede da sala e ainda abraçados ela apoiou a cabeça em meu peito.
                Ela levou sua mão até a minha, entrosamos nossos dedos e começamos a caminhar pelo corredor de saída. Apresentamos o bilhete final e próximo da bilheteria ela soltou minha mão e fixou o olhar em mim.
                A chuva caía mais serena junto ao vento e ao frio mais intenso. Ela suspirou fundo e me abraçou como se estivesse se despedindo e manteve-se encostada ao meu peito.
                - Obrigada pela seção!
                - Eu que agradeço, Carla.
                Segurei firme em sua mão direita e a posicionei de frente ao meu corpo. Ela segurou em meu pescoço e nos beijamos com mais intensidade que antes, como se houvesse mais sentimento que antes, como se não existisse o antes.
                - Posso te acompanhar até em casa?
                - Pode sim, Diogo.
                Ela passou a mão por trás de mim e fixou-a em minha cintura e começamos a caminhar pela calçada. 
                Obtive uma vontade de sorrir, apesar das inúmeras vezes que detestei e aboli esta prática. Mesmo que aqui dentro existia um extenso sorriso esperando ser liberto eu me convencia que não era merecedor daquela pequena alegria que surgia derrepente.
                E apesar da incomodante chuva serena e do frio chegamos ao portão da sua casa enquanto ela se apresentava um pouco a mim.
                - Será nossa última seção? – perguntei.
                - Não sei. Só sei que quero viver neste filme para o resto da minha vida.
                E enfim, sorri. Não que eu quisesse demonstrá-lo tão depressa, mas me convencer que não estava alegre naquele momento seria uma indelicadeza comigo mesmo.
                Ela aproximou seus lábios dos meus e novamente nos beijamos.
                - Esta será a última seção que vou me refugiar das lágrimas.
                E obtia outra vontade de sorrir. Passei meu braço por sua costa e acariciei seu ombro esquerdo. Ela fixou seu olhar no meu e sorriu. Foram vários olhares palavras e toques que marcaram aquela última seção, nossas tristezas e alegrias se completavam. E com a mesma dúvida e ansiedade do primeiro dia terminamos a reprodução do dia que marcou a nossa vida. 
Por: Wesley Carlos

2 comentários:

  1. Olá Wesley

    Se todas as seçoes de cinema terminassem assim, o mundo seria bem melhor. Eu não consigo escrever palavras dificeis, quero realmente agradecer seus comentários sobre os meus textos. Muito obrigado.

    Um abraço, paz e bem

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  2. Olá Querido Wesley,

    Espero, que esteja tão comfortável, tão feliz, quanto o Diogo.
    Wesley versus Diogo? Não precisa responder. Para que serve nossa imaginação?
    Agradeço seu comentário, belo, elegante, elogioso em meu blog.
    A ausência de resposta, ou qualquer outro tipo de ausência, carece, de uma subtil explicação. É de bom tom.
    Era bom, que tivesse sido por causa da Carla, ou doutra Carla qualquer.

    O teu texto está escrito, como quem conversa com um amigo(a) e abre seu peito.
    Estilo e sentido semâmtico correctos, mas não coloquiais.

    Li, "bebi" o texto de alto a baixo, sem um intervalo (no cinema, houve), mas eu não consegui parar, COMO NO BEIJO.

    A história foi igual a que qualquer um de nós já viveu, mas a narrativa não teve o fim, que eu esperava.

    CURIOSO, WESLEY, VOCÊ FEZ, CONSTRUIU NARRATIVA, DIGAMOS ABERTA. ASSIM, PODE CONTINUAR ESSE TEXTO, DANDO-LHE UM TERMINUS DIFERENTE, AQUELE, QUE TODO O MUNDO ESPERA (mas sem detalhes).

    Bom feriado, amanhã.

    Beijos carinhosos de luz.

    PS: HOJE, VOU PÔR MINHA FOTO NO SEU PAINEL. A "RELAÇÃO" ESTÁ PARA DURAR.

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Gostaria de agradecer, por você ler e comentar nos artigos postado neste blog, pois escrevo com amor e fico feliz quando vejo um pedaço da Essência de vocês aqui em baixo. Quando você comenta me dá a direção a qual devo tomar, o que tenho que escrever e/ou esclarecer.
A Essência agora está em você: Comente!!
Obrigado.