domingo, 18 de dezembro de 2011

O Dia Seguinte

                - Fernando! – grita uma voz feminina do cais da praia acenando para um rapaz sentado sobre um tronco na areia enquanto corre batendo seus cabelos lisos e pretos ao vento e ele, a poucos metros, ficava a olhando calado.
                Era uma manhã de domingo, o tempo estava nublado e algumas andorinhas passeavam pelo céu. A margem estava vazia e era possível somente ouvir o som da água beijando a areia ao som suave e melancólico das andorinhas. Clara, a jovem que antes gritara, se aproxima de Fernando que já não a olhava mais.
                - O que faz tão cedo por aqui?
                - Estou refletindo... – disse em tom sério e abafante que Clara teve de se esforçar para ouvir.
                Fernando mirava seus olhos a areia e começava a traçar algo que Clara observava tentando desvendar antes que terminasse. Os sons emitidos pelas andorinhas calavam o silêncio expresso por eles.
                - Estive por aqui ontem – comentava Clara sem perceber que Fernando não mostrava interesse pela conversa – e resolvi voltar hoje. Eu sabia que antes de amanhã você viria aqui...
                - E porque quis vir? – perguntava ele mantendo a mesma tonalidade de voz que a anterior.
                - Preciso muito lhe dizer algo, talvez depois de hoje as coisas mudem entre nós.
                - As coisas entre nós já mudaram a muito tempo, Clara. Você que ainda não percebeu... Não há mais “nós”, na verdade nunca existiu, agora sou “eu” e, talvez, “você”.
                - Eu sei... Pode falar o que quiser, todas as palavras serão merecidas. Mas aquilo no passado foi medo.
                - Medo? Se fosse medo, nada disto teria acontecido. Se fosse realmente medo não teria me dito que aquilo. Se fosse simplesmente medo você não estaria aqui... – desabafava ele ainda em tom baixo, mas desta vez deixava uma pequena lágrima caminhar em sua face e se desprender pelo ar.
                - Mas eu não vim para falar do ontem, venho para falar de amanhã...
                - Não tenho nada para falar sobre isto.
                - Mas eu tenho, só queria que me ouvisse.
                Ele suspirou fundo, passou o polegar sobre os olhos e olho na direção contrária AA jovem ainda mantida em pé.
                - Quero que me perdoe, Fernando!
                - Clara, para com isso, por favor! Você sabe que lhe perdoei antes mesmo de cada perdão que me solicitou. Você sabe que o que existe em mim, e que já foi para você, exalava perdão para cada ato teu. Mesmo me machucando, me ofendendo. Não tinha como não lhe perdoar...
                - Então olha em meus olhos e diga que me perdoou.
                - Não posso...
                - Não pode me olhar ou me perdoar?
                - Dou-te como resposta sua primeira pergunta...
                - Porque está economizando palavras? Conversa comigo, Fernando. Olha-me como antes, brinca comigo como antes, sorria como antes...
                - Clara, pare! Não toque em feridas curadas... – falava ainda olhando na outra direção na tentativa de esconder as pequenas lágrimas que caíam.
                - Então você irá mesmo noivar amanhã?
                Um frio intenso começa a percorrer o interior de Fernando, suas mãos começaram a ficar tremulas, seu semblante mudava espontaneamente, a língua junto aos outros órgãos ficavam na dúvida do que responder. Ele se pôs sobre os pés, mirou os olhos dentro dos dela, ambos lacrimejavam, não se ouvia ondas, nem andorinhas, parecia que tudo estava em silêncio para ouvir a resposta dele. Clara via sua face através dos olhos claros de Fernando que ainda mirava calado os dela, eles acabavam falando por Fernando o que Clara queria ouvir, mas que não ouviu.
                Fernando suspirou, algumas lágrimas já desciam de encontro ao queixo e balbuciou engolindo a própria saliva:
                - Sim... – e virou-se a dando as costas.
                - Fernando, mas e o teu amor?
                - Não há mais amor...
                - E todo aquele amor?
                - Por que quer saber dele agora? Logo agora? – perguntava colocando a mão no cabelo como se estivesse confuso.
                - Porque eu te amo, Fernando. Demorei perceber que é você o homem da minha vida. Demorei me deixar levar nesta relação... Eu preciso de você para me fazer feliz, para sorrir comigo. – dizia ela entre lágrimas.
                - Clara, eu insisti nisto por três anos. Preservei-me por três anos... E o que eu ganhei neste tempo? As coisas não seguem o rumo que você quer. Eu não sou teu pertence para recuperar a qualquer momento. Aquela foi a última vez que eu tentei, foi...
                - E o amor? – perguntava ela.
                - Não há amor... –mentia Fernando, agora sentando no tronco, sentindo mais dor ao responder que Clara ao ouvir.
                - Isto é mentira! Eu sei e você sabe que é. Dê-me outra oportunidade?
                - Eu não quero me dar esta oportunidade...
                - E quer ser infeliz consigo mesmo para o resto de sua vida?
                - Clara, vamos parar com isto! Pare de mexer com este sentimento. Eu não quero mais...
                - Fernando, não minta para você – interrompia Clara segurando o braço de Fernando que se levantava ficando de frente a ela – Por favor, Fernando, me perdoa.
                Fernando já não controlava as lágrimas, não sabia se a olhava, se evitava olhar, se saía correndo ou se entregava a aquele amor que o impulsionava ao desejo dos outros lábios.
                - Se é meu amor que quer como perdão, Clara, eis que não terá meu perdão.
                - Como pode se negar algo? Eu estou aqui falando do meu amor, sei que ainda me ama...
                -Amanhã eu irei noivar com alguém que me ama muito. Eu agora vou valorizar o sentimento dela. Não tenho medo de correspondê-la, não tenho medo algum do sentimento dela. Vou te esquecer e aprender a amá-la. Quero que vá. Quero que não fale mais comigo, se distancia de mim...
                - E como eu fico, Fernando? – disse com as mãos na face e chorando dentro delas - Como, meu amor?
                - Da mesma forma que eu fiquei todo este tempo sem você.
                - Você está se vingando não é? Pode falar, pode dizer do teu orgulho. Mas eu vou insistir nesta relação...
                - Vingança? Orgulho? Nossa! Você realmente não me conhece...  Se houvesse tudo isto que em mim não haveria amor, nunca existiria todo aquele amor que já lhe ofereci. Eu não vou desfazer o meu noivado simplesmente porque você resolveu me aceitar agora.
                - Dê-me pelo menos sua amizade? – pedia ela e via-se o tom e o semblante sincero em sua face, naquele instante, tão triste.
                - Tinha tanto receio em perdê-la, mas parece que se foi... Eu já tenho minha casa quase mobiliada, tenho família, a mulher que me ama, verdadeiros amigos... Não sei se quero começar algo novo agora.
                - E aquele jovem humilde e meigo que despertou este sentimento em mim? Onde está?
                - Novamente me chamando de orgulho. Mas isto não é orgulho... Cansei de ser movido por você e por aquele sentimento. Acho que o jovem humilde resolveu despertar e você ficou presa ao sonho dele... – e cada palavra que ele dizia remexia cada vez mais em seu interior, doía mais nele ao falá-las que a pessoa amada ao ouvi-la, mas ele se vencia aos poucos e mesmo com lágrimas insistia em dizer – Adeus, Clara, adeus...
                E sem tocá-la, virou-se e seguiu. Clara se ajoelha na areia e libera as outras lágrimas que havia conseguido segurar durante os minutos de diálogo. Senta-se no tronco e observa o romance da onda com a areia, as andorinhas já tinham partido e começava a cair sobre si um leve sereno. Clara passa o dedo pela areia e se depara com o tracejado que Fernando havia feito. Olha em volta a sua procura e percebeu que estava só com todo aquele sentimento que em um passado não tão distante havia ignorado e que hoje não a ignorava.  
                Volta com os olhares ao traço feito por Fernando na areia para avaliar a fundo o que era, mas a onda já vira e apagara.
                Ela suspirou, levantou-se, caminho alguns passos e se lançou ao chão de minúsculos grãos: querendo que o sentimento a transformasse em areia e que a onda o carregasse e o perde-se na imensidão do mar. Ficou ali até o fim da aurora, mas sem encontrar teu fim, sem reconhecer teu fim, sem viver o sim que desejava.
                Atrás de algumas folhagens a observava Fernando, pensando se voltava ou não, pensando se valeria à pena ou não, pensando no fim que poderia viver, mas que não estava apto a entrar em sua história... 
Por: Wesley Carlos


5 comentários:

  1. OLá caro amigo Wesley...

    Quando comecei a ler seu comentário, pensei em uma resposta pra te dar: e uma palavra me veio a cabeça. acaso ou destino teria me inspirado a escrever e este post, e você que estava tanto precisando dele encontrou? - mas não sei, as pessoas dizem que nada na vida é por acaso e que tudo na vida tem um por que. é muito bonito da sua parte não ter vergonha e expressar seus sentimentos assim. não se vê hoje em dia homens que sejam capazes de demonstrar a sua fragilidade, num mundo em que tanto machismo está predominante. fiquei realmente muito feliz em poder ter lhe ajudado mesmo com este texto, que bom que voltou a amizade com seu amigo, amizades são pra toda vida. não vale a pena ficar muito tempo distante quando se tem certeza que ela é superimportante em nosssa vida. obrigado pelos elogios que está sempre tecendo e que enobrecem meu blog e meus textos. tambem adoro seu blog e os textos.

    Fica na paz meu querido

    abraços

    Fernando

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  2. Olá Wesley

    AH! Se as pessoas ficassem acordadas para o amor, muitos desencontros seriam evitados. Gostei do seu texto, obrigado por comentar no meu blot e também por o esta seguindo

    Um abraço, paz e bem

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  3. Olá Querido Wesley,

    Mais um texto escrito por ti e com a marca, que já é tua.
    Mais uma narrativa, aberta como convém, e desta vez, as personagens são Fernando e Clara.
    Te baseias em factos da vida real, o que valoriza tuas histórias.

    Gosto de diálogo nos textos. Prende o leitor, quem lê, óbvio.
    O diálogo entre eles é muito interessante e natural. Poderia muito bem ser o que tu já tivesses tido com uma mulher por ti amada, ou eu, em relação a um homem por mim amado.

    As esperas e os desencontros da vida são uma constante. Temos de aprender a viver com eles.

    Sabes, meu querido, eu acho, que noventa por cento das pessoas, não estão com a pessoa certa, a ideal. Anda todo o mundo trocado. Que pensas sobre isso?

    FERNANDO SE IA CASAR NO DIA SEGUINTE, SEM AMOR.
    CLARA, POR MOTIVOS VÁRIOS NÃO PROCEDEU BEM NO SEU RELACIONAMENTO COM FERNANDO.

    Vidas sem sentido, se pode concluir.
    Bom fim de semana.
    Te aguardo.

    Beijos carinhosos de luz.

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  4. Que lindo amigo,Chorei aqui... Queria tanto saber o que Fernando escreveu na areia.

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  5. No dia seguinte sempre temos medo de fazer as escolhas erradas. Tentamos desesperadamente acertar, todavia, as vezes, falhamos. Falhamos porque somos humanos, porque não somos perfeitos! Quando o erro se torna presente, devemos recomeçar. O perdão é um bom passo nesse caminho. No entanto, antes de pedirmos perdão para os outros, precisamos nos perdoar! Precisamos perdoar nossas falhas, nossos medos! Quando fazemos isso estamos aptos a recomeçar uma nova história. Uma história que pode ter erros, medos, perdão. Uma história de recomeço que se iniciará no dia seguinte!
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    belo post! como disse a minha amiga Luz os diálogos são ótimos! Prende a atenção do leitor e faz com que ele mergulhe na história!
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    Não tenho palavras para agradecer os seus elogios no meu blog! obrigado! Não quero te perder de vista!

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Gostaria de agradecer, por você ler e comentar nos artigos postado neste blog, pois escrevo com amor e fico feliz quando vejo um pedaço da Essência de vocês aqui em baixo. Quando você comenta me dá a direção a qual devo tomar, o que tenho que escrever e/ou esclarecer.
A Essência agora está em você: Comente!!
Obrigado.