É um prazer imenso ter vocês aqui... Infelizmente, não tenho dado ao blog a atenção que ele merece, devido a correria do dia a dia. No entanto, o "Essência da Palavra" continua ativo, apesar da frequência reduzida de publicações. O carinho de vocês pelo espaço tem grande importância a mim. Obrigado!


Wesley Carlos, 17/09/2017.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Amanhecer no entardecer



Algumas notas saltavam da partitura amarelada e pisavam firme sobre as teclas de um piano rústico. Era uma tarde fria de inverno e Laura se concentrava em observar os saltos que seus dedos conduziam. Entre suspiros e um olhar suave, seus pequenos lábios balbuciavam letras que outrora escrevera para registrar os novos sentimentos que vigoravam: a saudade de uma vida que não vivera, a tristeza de uma felicidade rejeitada e o vazio de um amor que transbordava.
As horas passavam e a noite começava a entrar, junto a um vento frio, pela fresta ainda aberta na janela. Laura se levanta, fecha a pequena abertura, puxa a cortina e se desloca até a cozinha para pegar uma xícara de chá. Havia somente o som do silêncio buscando espaço junto ao barulho emitido por seus passos. Havia somente o respirar ofegante de Laura, o cheiro quente do chá e o abraço do agasalho de lã. Havia somente um coração dolorido, um pulsar de arrependimento e poucas lágrimas não choradas. 
Retornou até a sala e indo de encontro ao piano ficou o observando por alguns minutos com a xícara próxima ao queixo. O ambiente estava escuro, somente um pequeno abajur era o responsável pela iluminância da pequena área de estar. Laura se desloca até o sofá, apoia seu pescoço no encosto e fixa o olhar ao teto.
- Até quando ficará assim? - pergunta a si mesmo deixando uma pequena lágrima, outrora presa, vir à liberdade. 
Fecha os olhos suavemente e permite que lembranças se projetem sobre sua pálpebra. As lágrimas continuavam formando caminhos em seu rosto e beijando seus lábios. Abriu os olhos por segundos, passou os dedos na intenção de estancar as lágrimas e retomou até o piano. Seu coração pulsava forte, as notas novamente começavam a saltar, desta vez, mais organizadas e harmônicas. O silêncio se despedia e seguia ao som da voz de Laura, que com outras lágrimas, desabafava:
- Por tempos teu amor me encontrava e eu fugia. Por tempos era o meu cheiro que você queria. Foram horas dedicadas a insistência de me ter. E eu calada, corria, não queria contigo viver. Por tempos era o meu sorriso que te acalentava. Por tempos era alimentar minha felicidade que você queria. Foram horas dedicadas a declarações não correspondidas. E eu gritando, te negava, nos negava. E hoje, com tanto amor no peito, é o vazio de minha soberba que trás a tristeza da felicidade que rejeitei, da vida que a mim neguei, por amar quem o amor não conhecia, tendo a disposição o verdadeiro amor que carecia. Sem saber sofri por outro querer; e, ainda sem saber, hoje é por querer você. Perdoe todos os nãos que te dei e, por favor, os devolva-me para eu aprender. Não se afaste tanto como tem feito, tenho saudade do amor que neguei. Perdoe e se achar que vale a pena: tente, por favor, somente mais uma vez. Estou aqui, estou aqui., estou aqui...
Entregou a si um novo suspiro. Forrou as teclas com seu lenço de veludo, abaixou a tampa superior, desligou o abajur e se encolheu ali mesmo no sofá. De olhos fechados, era como se sentisse que uma pequena esperança começava a amanhecer em seu entardecer de silêncio.
A campainha toca uma, duas, três vezes; mas era tarde e Laura já adormecia. Detrás da porta era ele que voltava, insistente, para tentar pela última vez. Sentou sobre o velho carpete, encostou as rosas com cuidado para que não amassasse suas pétalas e ali adormeceu.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Pequenos embrulhos


A vida, muita vezes, nos oferta alguns presentes que não sabemos como cuidar... Às vezes são presentes que dão trabalho, cansaço, talvez estresse e até mesmo fadiga. Presentes que não aparentam ser donativos porque pré o julgamos pela embalagem que possui. Como falhamos, não é? Através disso, acabamos por não o cuidar da forma que deveríamos ou de simplesmente não abri-lo de modo a desvendar tudo que ele é, trás ou representa.
Nosso maior medo, mesmo que talvez oculto, é de não conseguirmos ser ou ter aquilo que tanto almejamos: queremos bens tangíveis, de longo prazo e que exigem muito de nós. Entretanto, porque não sonhar com o intangível? Porque não sonhar com aquilo que somente se poderia sentir?
Pessoas são presentes; aliás, os melhores presentes. Podem nos ensinar o certo ou nos induzir ao errado; podem trazer felicidade ou plantar uma floresta de tristeza; podem abrir caminhos, mudar o rumo, construir novas trajetórias ou simplesmente fincar uma estaca, abrir uma tenda e permanecer contigo... Enfim, as pessoas sempre hão de ser os melhores presentes. No entanto, perdemos a maioria deles o pré julgando: deixamos de abrir o embrulho, deixamos de viver o sonho.
Pessoas sorriem, choram, lutam, crescem, decaem, elas nunca desistem. Pessoas são motivadoras, motivantes, alimentam, criam, se apaixonam e são apaixonantes. São elas que trazem os sentimentos, que abraçam a alma com o silêncio de um olhar carinhoso e falam muito sem nada dizer. São pequenos embrulhos que embalam as mais lindas e puras almas.
            Sim, pessoas são presentes.
Se sonhos são presentes e estes, por sua vez, são pessoas; pergunto-te: você está sendo o presente na vida de quem? Aliás, falando em presentes, você já abriu os seus embrulhos? Cuide bem dos que recebera; eles não são eternos (...).
Jamais leve contigo a culpa de não ter sido o que deveria ser: seja agora! 
           Seja hoje um presente.


sexta-feira, 22 de julho de 2016

Segredos


Deixa eu falar ao seu ouvido todos os planos que tenho para nós, todos os sonhos que não revelei, os grandes e pequenos alvos que tracei.

Deixa eu cantar ao seu ouvido todas as notas do nosso amor, todos os versos a compor nossa melodia, as profundas e extensas estrofes que me inspirou.

Deixa eu revelar ao seu ouvido todos os segredos que ainda não te contei, todo o sentimento que há em mim, os suaves e intensos desejos que ocultei.

Deixa eu ouvir de você que irá guardar meus segredos, que trancafiará meus sentimentos em seu peito, que viveremos tudo que planejei,

em segredo (...)

domingo, 27 de março de 2016

Profanos


Mundo desigual com tanta gente igual.
Mundo irracional com tanta gente racional.
Mundo desumano e repleto de humanos.
...
Mundo. Mundano.


quinta-feira, 24 de março de 2016

Ocasional


Acabei sonhando o que não sonhara
e vivendo o que não se pode viver;
pois a vida vive na rotina
e sair da rotina ajuda a viver.
...
Acabei sentindo o que não sentira
e sorrindo a alegria que não pode sentir;
pois a morte vive a espera
e por isso preciso seguir.
...
Assim, acabei vivendo como nunca pensara
e sentindo o que nunca me permiti.
E alcancei a morte em vida
com a certeza que um dia vivi.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Nostalgia

     Que saudade das palavras: saudades de escrever, de me descrever, de me desprender, de me recitar, de me incluir, de me revelar, de me aconselhar, de viajar, de criar seres e os conhecer. Saudades do calor do abraço das vogais, dos beijos consonantais, dos encontros poéticos nos contos surreais... Saudade do problema sem solução e daquela solução sem problemas. Saudade das frases formadas, das formalizadas e até das informais. Ah... Saudade das rimas internas, das emparelhadas, das cruzadas e das enlaçadas. Saudade da Fonologia, da Morfologia, da Etimologia! Saudade de imaginar, de poder inventar, de reinventar e adaptar (...) Saudade das palavras, saudade das palavras: palavras, palavras!



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Objeção


Talvez eu seja, por inteiro, a sua metade;
talvez eu seja, na metade, parte do seu inteiro.
...
Talvez eu seja, por inteiro, parte da sua felicidade;
talvez eu seja, na metade, pedaço do seu sorriso.
....
Talvez eu seja, por inteiro, a parte de que não tenho;
talvez eu seja, na metade, a parte que em mim faltou.
...
Talvez eu seja, por inteiro, a metade do sentimento;
Ou, na metade, o inteiro que se findou.

                                                                                                     Por: Wesley Carlos

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Reconhecer


E foi dando tanto tempo, que tempo faltou.
E foi dando tantas desculpas, que justificativa não houve.
Foi tendo tanto medo, que o medo me impediu:
de viver o que sonhara ou de sonhar o que não vivi.
...
E foi dando tanto de mim, que pouco foi realmente cedido.
E foi dando tantos sorrisos, que a verdadeira alegria não existiu.
Foi querendo tanto zelo, que a amargura me atingiu:
por doar apenas a amizade ou por não ser como ela quis.
...
E foi dando tantos olhares, que pouco enxerguei.
E foi dando tantas palavras, que atitudes faltaram.
Foi dando quase tudo, que nada não foi realmente doado:
o sonho não foi alcançado ou o sonho não me alcançou.
...
E foi com tanto "quase", que pouco consegui viver.
E foi querendo tanta certeza, que conhecimento  me faltou.
Foi querendo evitar tanto sofrimento, que hoje sofro a pensar:
era você o tempo todo e eu não via ou fingia não enxergar.
...
Foi por pouco e, neste pouco, perdi você
pelo muito que, um dia, neguei te fornecer.

                                                                                                     Por: Wesley Carlos

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Pétalas, papel


As flores são para completar seu perfume,
e a carta para te entregar o coração.
...
As flores são para despertar seu sorriso,
e a carta para gerar emoção.
...
As flores são completudes do momento,
e a carta o registro do que sente o coração.
...
As flores eram para se entregues,
e, a carta, lida.
...
Mas as flores não foram recebidas,
e, a carta, indeferida.
...
O que fazer com essa carta, com essa flor?
Jogo fora ou insisto neste amor?


                                                                                                     Por: Wesley Carlos

sábado, 7 de junho de 2014

Apenas lembranças


Vou esconder para sempre o que sente o coração
Vou esconder para sempre para não me magoar
Vou esconder para sempre pois o velho coração
o impossível novamente passa a amar.
...
Vou esconder para sempre os versos que descrevem
Vou esconder para sempre as músicas que ouvi
Vou esconder para sempre as lembranças que percorrem
o impossível existente neste sentir.
...
Vou esconder para sempre os sorrisos que gravei
Vou esconder para sempre os abraços que ganhei
Vou esconder para sempre de modo a perpetuar
o impossível sentimento que em mim viverá.
...
Vou esconder para sempre as lembranças que não vivi
Vou esconder para sempre as metas que apenas sonhei
Vou esconder para sempre, o sempre que vive em mim
do impossível sentimento possível de sentir.

                                                   Por: Wesley Carlos

sábado, 31 de maio de 2014

Migalhas


Existe muito em mim que precisa de ti
E pouco em ti que precisa de mim
Mas esse é o pouco (mais pouco), 
que necessito para ficar feliz. 
...
Existe muito em mim que busca a ti
E pouco em ti que busca algo em mim
Mas esse é o pouco (mais pouco)
que necessito para sorrir.
...
Existe muito em mim que não me deixa desistir
E pouco em ti que comigo fica a sonhar
Mas este pouco já é suficiente
Para a felicidade em mim reinar.



                                                   Por: Wesley Carlos

sábado, 23 de março de 2013

Para se sentir


Falta pouco para te encontrar...
Sim, muito pouco, para te visualizar,
Seu perfume já vem junto ao vento,
E sua voz imagino me chamar!

Falta pouco para te encontrar...
Sim, muito pouco, para lhe abraçar,
Ainda não sabes que existo,
Mas me reconhecerá através do olhar!

Falta pouco para te encontrar...
Sim, muito pouco, para me aceitar,
Já sentimos a ausência um do outro,
E, em breve, vamos nos cruzar!

Falta pouco para te encontrar...
Sim, muito pouco, para nos amar,
Descobriremos o amor em um sorriso,
E, de mãos dadas, caminharemos sob o luar!

Falta pouco para te encontrar...
Sim, muito pouco, para me doar,
Será você a última e eterna,
Será você ou desisto de amar!

Por: Wesley Carlos

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Desvario

Com uma mão levanto teu queixo
e com a outra te trago até mim...

Através do olhar digo o que sinto
e com a voz expresso o outro sentir...

De sentidos me aproximo
e me deixo levar...

Na rotina, na mesma rotina,
naquela estranha rotina de sonhar...

Somente sonhar

(...)


Por: Wesley Carlos
Desculpem a ausência, estava sem assinatura de internet, por isto não estive tendo uma frequência de postagem... O "Essência da Palavra" continua ativo. Ele não para, ele pulsa junto a mim! As palavras presentes nele e o carinho de todos no apoiar deste sonho auxilia no bombardeio de sangue por minhas veias. O sangue da esperança, por que sem ela, eis que não sobrevivo. Obrigado a todos!

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Intenso Amor

Meu amor transborda por meus lábios,
a cada instante que te beijo...

Minha alma, com isto, se preenche,
com nossos intensos desejos...

Meu coração pulsa mais forte,
a cada toque, a cada olhar...

E seu amor faz meu amor
neste instante de te amar.


Por: Wesley Carlos
Desculpem a ausência, estou sem assinatura de internet, por isto não ando tendo uma frequência de postagem... O "Essência da Palavra" continua ativo, e voltará em breve com novas postagens. Obrigado a todos!

domingo, 12 de agosto de 2012

Dois Anos de Essência da Palavra

Reinauguração


Foram dois longos anos onde o sonho de se transformar sentimentos em palavras pode alcançar, de certo modo, algum público. O “Essência da Palavra”, inicialmente conhecido como “Waiting-room”, era somente um espaço para publicar o que havia escrito e deixava guardado na minha gaveta; contudo, meses seguinte, o carinho que passei a receber dos poucos seguidores que havia conquistado fora o bastante para que eu pudesse modificar o modo de tratar o blog, de me direcionar ao blog e até mesmo o modo de me expressar a partir dele. Já não queria escrever sobre o imaginário, sentia a necessidade de descrever meus sentimentos fazendo deste espaço uma recriação de mim em um ambiente fictício de meu ser.
A arte de escrever é contemplada e reconhecida quando existe alguém que possa ler onde, além de ler, sinta-se presente na história ou na poesia escrita. Quando me refiro à palavra eu vejo o leitor como o impulsor para que exista um autor. O autor pode até criar, dar o fim que desejar ao que esta criando e descrever sons e ambientes da sua melhor forma ou da forma que lhe apraz. O leitor, no entanto, é aquele que avalia o que foi lido, é aquele que se sujeita a sentir o que foi escrito, é aquele que imagina cada cena descrita onde somente ele tem a capacidade de “ver” o que o autor, por se preocupar demais em descrever, ainda não comtemplou.
Sinto como se cada texto fosse um pedaço de mim, e realmente é. Se estou triste, transfiro este sentimento para um personagem e nesta transferência crio outro que trás as palavras que necessitava que alguém me dissesse e o abraço que outrora não recebi. As palavras conseguem formar amigos para que eu possa desabafar, as palavras conseguem realizar sonhos das quais estaria longe de meu alcance e nesse poder incontrolável de ter a liberdade de criar, vou realizando sonhos, vivendo sentimentos e amando eu mesmo de forma cada vez mais complexa, mas, talvez, coerente.
Sinto o amor presente em uma poesia, sinto o calor da crítica presente na dissertação, sinto a criatividade existente em uma fábula, sinto o sonho existente em um conto, sinto o abraço sufocante de uma crônica… Sinto em cada texto uma essência que somente as palavras são capazes de formalizar, torna-se visível e sensível ao que ler.
Escrevo para ser, ou para deixar de ser, o que sou ou o que ainda não cheguei a ser; escrevo para fazer da minha vida a existência de outras vidas que só se tornam vivas quando alguém lê: como se o leitor tivesse o “poder” de um criador e de constituir diferentes aparências para uma única que eu havia criado.
O mérito de uma leitura é destinado ao leitor, nunca ao autor... Quem lê é quem dá vida; é quem sente o, antes, insensível; é quem constitui as imagens, antes, só descritas... Se não houvesse leitores, as palavras ficariam presas e imóveis: seriam inexistentes!
Escrevo para despertar imaginação, inspirar sonhos, desfazer conflitos ou constituir harmonia. A razão de escrever esta em torno da vida dos imaginários que só sobrevivem dentro de uma folha de papel... Escrevo para me colocar em risco e me salvar várias vezes revelando minha coragem e destreza; escrevo para errar e corrigir minhas próprias falhas: como se eu fosse outro, que de fora, me observa a todo instante. Como se eu mesmo fosse meu instrutor que, crítico e rígido, busca o meu melhor não ignorando nenhuma falha.
Gosto de escrever sobre sentimentos porque o sentido da existência esta em torno deles; escrevo sobre sentimentos para tornar vivo meus personagens; escrevo sobre sentimentos para sentimentalizar quem lê. Escrevo para que, quem lê, sinta-se inserido em que, indiretamente, inserido já estava; escrevo para me encontrar e, depois de achado, me perder novamente nas entrelinhas dos meus próprios sentimentos, da minha própria existência... Perder-me e me encontrar dentro de mim com o intuito de saber quem, como e o que realmente sou ou tudo que um dia já fui.
Agradeço a todos que estiveram presente comigo durante estes longos anos de sonhos realizados e sentimentos vividos. Neste espaço acabei me conhecendo um pouco mais e gostando ainda mais de mim, neste espaço tive a oportunidade de saber o que vocês sentem ao ler e a opinião do que havia lido. Respeito cada palavra que aqui for dita, porque é elas o sentido deste espaço ainda existir.
Não sei se tornarei um escritor consagrado, no entanto, as palavras já me permitiram realizar grande parte deste mesmo sonho. 
Por: Wesley Carlos

DOIS ANOS DE ESSÊNCIA DA PALAVRA
Obrigado a todos que participaram comigo até este segundo aniversário, construí este espaço com muito  carinho e sem vocês nada disso aqui teria razão para existir, as palmas abaixo são destinada a  você: Leitor!
                   
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sábado, 30 de junho de 2012

Pingo de Esperança

Republicação
Resolvi abrir a janela do meu coração e deixar a suave brisa do amor que passava entrar e se apoderar para levar o odor da tristeza. Os raios daquele sol de entusiasmo invadiam e esquentavam cada cômodo oco de meu peito. Os delicados sons das vozes dos pássaros cantavam uma história onde a paixão me brindava com um olhar mágico e impulsivo.
Não havia nuvens naquele céu de lembranças, mas havia me esquecido de o olhar deslumbrado com a visão redirecionada às flores de esperanças que desabrocharam dias atrás. A primavera surgia trazendo o perfume suave das rosas para dentro do pequeno lar e uma borboleta delicada e flácida pousava na janela de meu peito e pausadamente movimentava suas asas descansando da longa viajem até chegar a mim.
Um beija flor da sorte surge e começa a sugar a água adocicada que eu havia posto na janela para atraí-lo há alguns anos, mas como a janela esteve fechada por tanto tempo poderia não ter o visto outras vezes. Resolvi, então, abrir as portas do meu coração e começar retirar as telhas de aranha no teto e nos rodapés. Movi alguns móveis do lugar, limpei a sujeira escondida por atrás deles e aos poucos o cheiro ruim de mofo se desprendia.
Peguei a vassoura da reflexão e varri toda a amargura para a garagem e deixei para recolher e ensacar depois. Movi as cortinas: a poeira do medo caia ao chão. Parei por um pequeno instante para descansar e sentei na janela olhando o jardim: (suspiro!) Como as flores estavam lindas e não percebia por ter deixado as janelas e portas trancadas por tanto tempo...
Um raio de luz era refletido pela água do chafariz onde um pássaro da raça fé se banhava contente por eu ter permitido que a água voltasse a se acumular ali. Logo a companhia toca, levanto-me e olho para ver quem queria entrar. Abri a porta de meu peito e a felicidade, que por muito tempo não me visitava, entrou. Sentou-se, conversamos calmamente enquanto tomava o chá de ponderação que prepara meio amargo.
Naquele instante não teria como ele ser doce, o açúcar tinha acabado há tempos e já passava despercebida sua ausência em mim. Conversar com a felicidade e tomar aquele chá parecia dá mais brilho e encanto ao jardim que por tanto tempo evitei visualizar. Meio apressada ela visitou cada cômodo do meu coração e mostrava sua satisfação com a faxina que resolvi fazer derrepente:
- Faltam somente mais alguns detalhes a ser alterado e limpado para eu voltar a morar contigo... - disse com um sorriso meigo na face e passando os dedos na cômoda onde eu guardava algumas palavras fortes e amargurantes que já havia recebido.
Após andar por todo o peito, ela volta até a mesa de chá e termina de beber o da xícara comigo.
- Deseja mais? – perguntei.
- Não, obrigada! Só quis mesmo vir para mostrar o que ainda falta para eu voltar a morar aqui, tenho que partir agora. Mas não tenha presa, devagar me alcançaras. Os que vão muito rápido a minha procura passam por mim e nem me percebem.
Levantou-se e saiu, pela mesma porta que entrara, acenando.
Juntei as xícaras e guardei o chá para terminar de consumi-lo mais tarde. Mirei os olhos por volta e vi que ainda havia muito que limpar ali. Peguei um pano de arrependimento, enchi um balde com lágrimas e o pano molhado nelas serviu para limpar toda a sujeira no chão da sala.
Estava tudo muito empoeirado, apesar de agora o ambiente está claro e perfumado, a faxina duraria por alguns meses até sentir o coração limpo por completo. Havia rastros do ladrão de sonhos por toda a parte, ele entrara e levara consigo todas as caixas de sorriso da dispensa. Precisava recuperar tudo que havia perdido para a solidão que eu já tinha expulsado junto com o nascer daquele sol que modificava minha vida.
Fui até a garagem e juntei toda a amargura, lançada lá, antes que o vento a trouxesse de volta para dentro do meu coração e desanimasse minha faxina. Ensaquei, coloquei o lixo na calçada esperando o caminhão semanal de recolha de sofrimento da companhia Amizade passar e o levar para reciclar em um sorriso e trazer a caixinha cheia deles para mim.
             E, por fim, sorri enquanto algumas alegrias brincavam de esconde-esconde de frente ao portão. Um portão que por tanto tempo esteve fechado acumulando resíduos de um sonho, de um sentimento, resíduos em meu coração de outro coração. Sentei no banco do jardim e olhei o por do sol que por tempo não nascia para mim. A lua que viria parecia ser cheia: cheia de vontade de viver e parecia querer compartilhar aquele novo sentimento comigo. 
Por: Wesley Carlos 

terça-feira, 3 de abril de 2012

Marca de Sujidade

Sua aparência era bastante reprimível: de ombros largos, baixa, cabelos escuros e crespos, olhos amarelados, roupa encardida, chinelo de cor distinta, unhas grandes e acomodando sujeira, pés enlameado e magricela. De certa forma, quando Liara apareceu em minha porta pedindo um prato de alimento meu coração em sintonia com a alma chorou.
              “A páscoa novamente não chegara farta para todos”, lamentei-me.
               Convidei para que entrasse, se banhasse e vestir-se mais adequadamente. O calor daquele sol forte a fez transpirar intensamente e aquilo lhe ocasionava um mau cheiro. Indiquei onde ficava o banheiro, cedi uma toalha, uma muda de roupa nova e deixei que ela se banhasse.
                Enquanto Liara se limpava, e com isso, eu colocava à mesa uma combinação de mantimentos, deparei-me com perguntas em que o questionário que eu compunha fazia com que eu mesmo refletisse.
                A Semana Santa da sociedade insocial chegava revelando a cada um de nós teu próprio declínio da decadência do espírito social nesta ânsia imoral de comemorar a santidade sendo que atitudes dos santos ainda não cometemos.
                A ausência de amor, ou ainda, da verdadeira pureza deste sentimento, levou aos homens a paixão insaciável ao descaso com os demais seres em vida. A sociedade contemporânea vive dentro de um universo pessoal criado dentro de si onde tudo, e todas as suas ações, passam a ser reflexos desta incompetência relativa de ser social em uma sociedade egoísta e desigual: vivemos todos os dias, exclusivamente, para nós!
                A páscoa, símbolo de ressurreição, somente comprova de como precisamos renascer todos os anos e mudar. A Semana Santa, símbolo de paixão, morte e ressurreição, somente vem para mais desta ideia completar. É notório perceber o que esta incoerente a nossa volta. O problema é que vedamos nossos olhos enquanto nos deleitamos em banquetes, esquecendo-se que ali perto, existe um ser esperando que um “santo” se aproxime e ofereça um alimento e, ainda, uma simples ajuda.
               Agora me diga: onde está a ressurreição do nosso espírito social? Onde está a paixão pela vida e por sua qualidade? Será que esperaremos a morte e extinção da nossa própria existência?
              Nossa sociedade já não é mais inocente, nosso ser já se tornou algo violável. A vida aos poucos faz de si mesmo algo sem valor, e nossa pureza vai à ausência de amor... E esta mesma pureza dissipa na imundície do desprezo com nosso próximo, como se o próximo fosse inferior, estando à inferioridade dentro de si mesmo: o egoísmo!
Jesus vence a morte para mostrar o valor da vida. Nós estamos vivos, e levando nossa própria essência de forma, talvez, irreversível no colapso da ausência de ser social. E ainda somos capazes de comemorar... Que inútil!
"Onde há de estar o amor que Jesus semeou?", perguntava-me sem obter respostas.
Liara sai do banheiro segurando a toalha que ficara amarelada e me entrega quieta e apreensiva. Puxei a cadeira, pedi para que sentasse e a observei comer. Depois de se sentir satisfeita com o que havia comido, agradece com uma voz baixa e tremula. Acena indicando que irá partir e a acompanho até a porta... Sem olhar para trás ela seguia caminhando lentamente na direção da nascente do riacho e, aos poucos, desaparecia vagarosamente pelo horizonte que dali observava.
“Teria ela o que comer amanhã? Será que haveria o amanhã?”, lamentei-me.

Por: Wesley Carlos