terça-feira, 3 de abril de 2012

Marca de Sujidade

Sua aparência era bastante reprimível: de ombros largos, baixa, cabelos escuros e crespos, olhos amarelados, roupa encardida, chinelo de cor distinta, unhas grandes e acomodando sujeira, pés enlameado e magricela. De certa forma, quando Liara apareceu em minha porta pedindo um prato de alimento meu coração em sintonia com a alma chorou.
              “A páscoa novamente não chegara farta para todos”, lamentei-me.
               Convidei para que entrasse, se banhasse e vestir-se mais adequadamente. O calor daquele sol forte a fez transpirar intensamente e aquilo lhe ocasionava um mau cheiro. Indiquei onde ficava o banheiro, cedi uma toalha, uma muda de roupa nova e deixei que ela se banhasse.
                Enquanto Liara se limpava, e com isso, eu colocava à mesa uma combinação de mantimentos, deparei-me com perguntas em que o questionário que eu compunha fazia com que eu mesmo refletisse.
                A Semana Santa da sociedade insocial chegava revelando a cada um de nós teu próprio declínio da decadência do espírito social nesta ânsia imoral de comemorar a santidade sendo que atitudes dos santos ainda não cometemos.
                A ausência de amor, ou ainda, da verdadeira pureza deste sentimento, levou aos homens a paixão insaciável ao descaso com os demais seres em vida. A sociedade contemporânea vive dentro de um universo pessoal criado dentro de si onde tudo, e todas as suas ações, passam a ser reflexos desta incompetência relativa de ser social em uma sociedade egoísta e desigual: vivemos todos os dias, exclusivamente, para nós!
                A páscoa, símbolo de ressurreição, somente comprova de como precisamos renascer todos os anos e mudar. A Semana Santa, símbolo de paixão, morte e ressurreição, somente vem para mais desta ideia completar. É notório perceber o que esta incoerente a nossa volta. O problema é que vedamos nossos olhos enquanto nos deleitamos em banquetes, esquecendo-se que ali perto, existe um ser esperando que um “santo” se aproxime e ofereça um alimento e, ainda, uma simples ajuda.
               Agora me diga: onde está a ressurreição do nosso espírito social? Onde está a paixão pela vida e por sua qualidade? Será que esperaremos a morte e extinção da nossa própria existência?
              Nossa sociedade já não é mais inocente, nosso ser já se tornou algo violável. A vida aos poucos faz de si mesmo algo sem valor, e nossa pureza vai à ausência de amor... E esta mesma pureza dissipa na imundície do desprezo com nosso próximo, como se o próximo fosse inferior, estando à inferioridade dentro de si mesmo: o egoísmo!
Jesus vence a morte para mostrar o valor da vida. Nós estamos vivos, e levando nossa própria essência de forma, talvez, irreversível no colapso da ausência de ser social. E ainda somos capazes de comemorar... Que inútil!
"Onde há de estar o amor que Jesus semeou?", perguntava-me sem obter respostas.
Liara sai do banheiro segurando a toalha que ficara amarelada e me entrega quieta e apreensiva. Puxei a cadeira, pedi para que sentasse e a observei comer. Depois de se sentir satisfeita com o que havia comido, agradece com uma voz baixa e tremula. Acena indicando que irá partir e a acompanho até a porta... Sem olhar para trás ela seguia caminhando lentamente na direção da nascente do riacho e, aos poucos, desaparecia vagarosamente pelo horizonte que dali observava.
“Teria ela o que comer amanhã? Será que haveria o amanhã?”, lamentei-me.

Por: Wesley Carlos