terça-feira, 27 de março de 2012

Confissões

Com olhos fechados, te via!
Você mesmo muda, eu te ouvia!
E seu cheiro insensível, em mim se prendia!
Sua presença impresente, me saciaria!
Sem toques, você me abraçava!
Ausente de teus lábios, os nossos se encontravam!
E no encontro dos desencontros, sorria!
Invisivelmente você, aqui, existia!
E ausente do oculto presente, lhe observaria!
E o sentimento ainda inexistente, aos poucos, sentia!
...
Delírio! Delírio!
Amar!

Por: Wesley Carlos 

sábado, 17 de março de 2012

Âmago Matrimônio

Não havia ninguém na cerimônia, rosas sem cor, sem perfume e murchas faziam a ornamentação do lugar. A matriz nunca esteve tão vaga onde os sons caminhavam encontrando-se repentinamente...  O tempo nublado e o calor incomodante movimentavam uma pequena molécula de suor que descia por minha costa.
                A música, que se ouvia na ausência de músicos, iniciava-se indicando que era o momento de eu entrar, em passos solenes, até o altar. E iniciei pequenos passos e mantive meu olhar ao chão. Um pequeno nervosismo corria por meu corpo e se convertia deixando minha perna tremula. Tentei despertar um sorriso nos lábios e, após sua estabilização, o mantive até chegar ao altar.
                A música aos poucos se silenciava... Virei-me de forma que pudesse olhar para os bancos da matriz e inquietamente impaciente aguardava a entrada da noiva. Não sabia se ela já havia chegado, um dia antes a vida havia me dito que ela provavelmente não apareceria de forma a iniciar um enlace matrimonial comigo.
                Aos poucos um ou dois sentimentos chegavam e se posicionavam em um dos bancos mais distantes do altar da matriz. Concentrei-me na nova música que voava por ali e deixei-me para relaxar sob sua essência. Não havia convidado ninguém para o evento, queria somente a presença do ministro e da noiva. Não queria ter festa, por que aquele seria um evento pessoal e internamente dentro de mim.
                Ouvi as notas afinadas de um pássaro se misturar as da música que ainda soara, fechei os olhos e suspirei: “Será que Ela não viria?” Quando novamente permiti que meus olhos se abrissem um carro se mantinha parado em frente à porta de entrada da matriz. Fixei o olhar nela e aquietei-me.
                Corri o olhar pela nave da matriz e mais sentimentos estavam presentes querendo visualizar o evento. O ministro anuncia calmamente a entrava da noiva, a musica mudava iniciando sua marcha matrimonial. Um pequeno sorriso surgiu do fundo do peito e, empurrado pelo sangue na artéria, ele se desfez pelos lábios.
                A porta do veículo se abria lentamente, o vestido branco e longo não permitia que enxergássemos a perna e pés. Logo sua mão coberta por uma luva branca de detalhes dourados buscou impulso na porta e trouxe todo o restante do corpo.
                Sorri! Ela estava linda e viera para cumprir o que havia dito e mostrar para a vida que também sabe surpreender. Sozinha, se aproximou da porta. Os demais sentimentos levantavam e olhavam em direção a porta da matriz... Naquele instante um vento forte passou ao redor levando-me arrepiar. Com sua intensidade a calda do vestido e a grinalda se movimentavam seguindo a direção que o vento partia. E ainda sob a música que se iniciara, a Felicidade entrava rumo ao altar da minha vida para matrimoniar nossa relação, de forma que ela se transformasse na outra parte de meu ser.
                Vinha calmamente como tantas outras vezes que se encontrara comigo enquanto ainda nos conhecíamos. Mantive meu olhar ao seu e o dela se mantinha ao chão. Segurava as mesmas flores murchas e pálidas. Vestia-se com um longo vestido claro com detalhes dourados que davam mais brilho ao teu ser. Pisava sob o carpete da matriz como se estivesse movimentando-se sob algo frágil e delicado. Mas toda aquela senilidade a fez se aproximar de mim.
                Estávamos, agora, um ao lado do outro e de costa aos demais sentimentos que, pelo som emitido, parecia que haviam se sentado. Na ausência da música uma voz grave ecoava pela matriz iniciando a cerimônia e narrava nossa história: a voz era a de Deus.
                - “Por um longo período Ele buscava o amor que ligaria um ao outro. Buscava, porém, sem sair do lugar, sem ao menos insistir ou procurar. Buscava primeiro, em pensamento, um desejo impulsor de se movimentar. Ela sempre o aguardou! Sempre achou que era Ele que deveria se aproximar, que era Ele que deveria a buscar. E com isto, ambos ficavam parados! Ambos não se encontravam... Confesso que preferi não realizar o desejo dEle e, com isso, apenas fui gerando situações para Ele se permitisse e se movimentasse. Mas faltava a Coragem, Ele precisava primeiro  construir uma amizade com a Coragem. Gerei então uma forma dEle a conhecer e, ainda, de aproximá-los de forma mais amigável. Demorou, mas enfim, Ele descobria que a Coragem passava a ser sua melhor amiga (daquelas que chamamos de irmã). Todo mundo precisa de uma amizade, que sendo esta mais confiável, tratamos e contamos vários acontecimentos de nossa vida, no mesmo instante que pedimos ajuda e conselhos. Eu sabia que estava certo que isto era necessário para que enfim, ambos se encontrasse. A Coragem impulsionava constantemente seu amigo a se movimentar, espero que esta amizade dure perpetuamente, agora, mais que nunca, precisará mais dEla para continuar a seguir. Na verdade, está no momento de você fixar o olhar para a Felicidade e sorrir porque você conseguiu a obter. Fico feliz que tenha acreditado em mim e não na “Vida” que aparecera e lhe contara ladainhas. Graças a Coragem, seu forte impulsor, hoje você esta aqui no altar. Achas ainda que parado, e só, você teria obtido algo? Com toda certeza não. E falando em Certeza, é exatamente Ela, a irmã da Coragem, que eu tinha quando observava ambos distantes um do outro. A Certeza é, e sempre será, meu braço direito em todas as minhas ações. O Erro nunca se encontrou comigo, então acredite em minhas palavras, tudo aconteceu no tempo que deveria ocorrer. Faz parte da vida se encontrar com a tristeza as vezes, e até de se relacionar com ela. Mas ninguém jamais algum dia se casou ou casará com ela. O matrimônio é sinal de Alegria, e essas duas não se dão muito bem. Faz parte da vida, também, se deparar com o Desespero no meio do caminho e, com isso, deixar o Medo te fazer retornar. Não se assuste! Tudo isto faz parte e será necessário...”
                 Outro vento intenso corria de fora e entrava pela matriz. Minhas mãos começavam a tremer, estava nervoso e aquilo só passaria quando visse a entrada das alianças e a colocasse em meu dedo. A música se pausava, mas iniciava outra ainda mais calma e leve. Voava em sonhos, em pensamentos, em imaginação: chorei.
                - “Há, quantas lágrimas já viesse me entregar? Quantas vezes ouvia você lamentar dizendo: “Deus meu, porque me abandonastes!”Quanta inocência... Achas mesmo que eu, seu pai, lhe abandonaria? Se isso fizesse, jamais poderia ser considerado Deus. Eu permiti, porém, que demais coisas acontecessem para ver o quanto você pode ser forte. Sabe, quando você e a Felicidade ainda não se conheciam ambos passavam diariamente um ao lado do outro. Ela sabia de você, mas não podia se aproximar sem que você se aproximasse... Você, meu jovem, você que nunca se permitiu ter a Felicidade. Porque tanta pressa em seu caminho? Você ficava tentando me compreender e esquecia-se de entender você próprio, de procurar saber quem você é, do que realmente precisa e de que forma alcançaria isto. Você, como vários outros, vinha até o meu altar para me entregar novas lágrimas e pedir solução de seus problemas. Ei, fui eu que lancei sobre ti cada problema, queria testar e convencer a você mesmo o quanto poderia ser forte, mas você nunca tentou! Sempre fugia de você mesmo...”
                Novos sentimentos chegavam ao local, o ministro mantinha sua cabeça baixa, minha noiva ainda não tinha fixado seu olhar no meu nem ainda os encaminhado até mim. A matriz, que deixava a voz de Deus ecoante, aos poucos era preenchida por mais convidados. Eu não convidara ninguém, mas a Felicidade sim!
                - “Naquela quarta-feira ensolarada, quando resolvestes abrir a janela de seu coração e deixar o calor daquele sol entrar eu senti daqui do alto o cheio de mofo se desprender. Porque deixou seu coração trancafiado? Não deixou que ninguém penetrasse e conhecesse seu interior? O que escondes? Qual era o teu receio? Eu sei, tudo isto eu sei... Quero somente que lembre-se! Foi exatamente neste dia que sua voz caminhou até mim agradecendo por mais um dia. Como eu me alegrei em ouvir aquilo, você não veio com lágrimas, nem com tanto desespero. Veio e me agradeceu por tudo que estava passando... Sim, a partir daquele instante você amadurecia e já poderia se relacionar com Ela. Você ainda agia como uma criança ingênua, se desesperava em meio aos seus problemas, a toda sua ausência interna de si e apenas chorava cobrando-me por algo que não devo lhe pagar. Mas naquele dia, algo lhe mudava. Meu pequeno filho crescia, sim! Ele amadurecia... E é por este motivo, e tantos outros, que jamais desisto de um filho meu e sempre faço a repetição desta união...”
                Por instantes movimentei a cabeça e observei os demais sentimentos sentados, quietos e presentes no evento. De simples e vaga, a festa se expandia. Não havia mais ecos no local, a voz de Deus era a mais alta e nem os bebês presentes choravam por temê-la. Deus continuava contando a mim mesmo minha vida, antes de formular perguntas essenciais de qualquer casamento.
                - “Desde o ventre de sua mãe, eu havia lhe escolhido e escrito cada fase que viveu e tantas outras que ainda viverá. E nesta escrita estava justamente marcado para hoje seu enlace matrimonial com Ela. Que bom que não desistiu de você, ainda bem que você se despertou e viu que além de me pedir algo você também precisava tentar. Aquele meu filho já começava a ganhar uma mente mais aberta e observadora. Você, meu filho, começava aos poucos a abrir seu coração para os bons sentimentos entrar. E graças a sua amizade com a Confiança, você conheceu a Felicidade e enfim, passaram a se relacionar. Hoje, mais uma etapa em sua vida se concretiza comprovando novamente o quanto o seu amadurecimento permitiu que estivesse aqui...”
                A música cessa e muda instantaneamente para outra, onde sob esta ocorreria à entrada das alianças. Viramos-nos em direção contrária e observamos um pequenino Amor entrar, meio desajeitado , trazendo as alianças sobre uma almofada dourada. Cada passo a frente, mais me sentia! Cada passo dado, mais de mim se apresentava a mim. Cada passo que aquele Amor dava se aproximando de nós, mas eu passava a perceber o valor de minha vida, do meu bem interior, do meu singelo viver. Eis que Deus narrava o acontecimento:
                - “As alianças, símbolo de união, demonstrará seu compromisso com Ela. Isto indica que não deve desacreditar dela na tristeza, não duvidar de sua existência na doença, e ambos estarão juntos até no período que a morte os encontrar. Ela passa a ser metade do teu ser... Ela será a partir de então sua adjutora!”
                Recolhi as alianças e me posicionei na posição primordial.
                - “Antes de tudo, existe alguém presente que é contra este relacionamento?”
                Um silêncio iniciava pela matriz, uma mão se levanta indicando que alguém protestava com minha união estável com a Felicidade.
                - “Diga-me, o que tens contra esta relação?
               - “Como podes permitir que ele se case com a Felicidade tendo várias vezes falhado contra ti?” – dizia a própria blasfêmia.
                - “Meu caro, meu caro... Eu jamais impediria que meu filho seja feliz. Para isto, eu peço que o Perdão entre por esta porta e deixe que as pétalas de amor se renove neste ambiente...”
                E o Perdão entrava, fazendo que todas as rosas desabrochassem novamente com mais cor, mais perfume, mais brilho e mais encanto. Todo o meu ser se alterava... A Felicidade parecia já habitar dentro de mim: sorria!
                - “Há mais alguém contra este relacionamento? Acho que com Perdão, nada mais há a ser questionado...”
                O silêncio novamente voltava, mas desta vez nenhuma mão se levantara.
                - “Se não tem, peço que todos se coloquem sobre os pés.”
                Todos em pé, Deus continuou:
- “Filho meu, oh meu filho querido, aceita a Felicidade como sua adjutora?”
A voz parecia não sair, minhas mãos tremiam. Mesmo eu não sendo merecedor, Deus permitia que eu se casasse com quem eu tanto busquei. Mesmo reclamando em cada prova, em cada perca, mesmo achando que estava só, sendo que só nunca estive Ele não havia desistido de me fazer encontrar com Ela: sorri, chorei!
- “Sim, meu pai, eu aceito a sua vontade na minha vida!”

Uma claridade invadia meus olhos! Era como se uma grande luz se desprendesse do céu sobre mim. Meu peito transbordava de felicidade, lágrimas escorriam de meus olhos. A Felicidade se manifestava internamente com uma satisfação imensa de estar dentro de mim. Comecei a agradecer a Deus por ter permitido que eu a conhecesse, agradeci a minha amiga Coragem por ter aparecido no momento exato. Somente o agradecimento gritava em meu peito...
Eu vencia mais uma batalha. Deus revelava todo o seu resplendor sobre meu ser.
Já não estava na matriz, e sim ajoelhado em torno da minha cama agradecendo a Deus mais uma vez por mais um dia de vida. E sorri, com tanta alegria, que somente Deus conseguiria revelar o que eu senti e tudo que ainda sinto aqui dentro de mim.

Por: Wesley Carlos