sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Coadjuvante Inquietação


Uma dorzinha contorcia em meu peito e começava a caminhar pela artéria esquerda. Já era noite e além da ausência das estrelas um sereno fino e silencioso, que sobrara da chuva que cessara, vinha ao chão. Quieto e um pouco sonolento debrucei na janela do quarto e fitei o deslocar da chuva pelo asfalto até seu desaparecer para o interior do bueiro.
                A luz do poste, próximo a minha residência e a única da rua que ainda acendia, ficava se alternando entre o iluminar ou não o espaço que seu feixe de luz preenchia. Mirei o olhar nela por instantes e deixei que as lágrimas, que eram empurradas por aquela dor para fora de meus olhos, descessem por minha face até se desprender do queixo até a base da janela.
                Não havia estrelas e a noite estava escura, fria e vazia. O deslocar daquela mágoa por todo meu corpo o fazia manter a mesma aparência obscura e assustadora que aquela rua ganhara naquela noite.
                O conflito existencial de sentimentos em mim parecia querer me despertar e me envolver cada vez mais naquela discussão diária que há tempos preferi não ficar envolvido. As dúvidas, contradições e incertezas de meu interior revelavam a mim mesmo minha fragilidade no instante em que estava sendo forte o bastante para suportar a nova ausência que surgira.
                Sentia medo: medo de perder o que ainda não havia ganhado, medo da coragem que aos poucos surgia, receio do porvir que não sabia se viria. E a guerra cada vez mais deixava recair sobre mim suas dores, magoas e destruições. Como se eu fosse seu impulsor, como se eu fosse o único alvo para consumir, como um soldado desarmado e impotente perante um exercito forte que jamais perdera uma batalha.
                Não era comum ouvir o cantarolar de alguma coruja solitária por ali, mas o som incomodante do pequeno pássaro deixava à rua uma aparência mais sombria e perturbadora.  Desencostei da janela e suspirei... Como eu precisava de um único abraço, de algumas palavras animadoras, como estava sendo difícil suportar tudo aquilo, como aquela ausência doía ao ser percebida.
                Buscava alguém que me entendesse e, com isso, me revelasse, buscava alguém que me ajudasse, buscava alguém que me fizesse mostrar o quanto o sorrir e o viver seria necessário. Mas quanto mais eu percorria para esta busca, mais e mais a vida me mostrava que a guerra estava em mim. Mais a vida tentava me dizer que o erro ocorria na verdade dentro de mim, mais a vida apontava para minhas imperfeições e me fazia chorar.
                Seria eu merecedor de tudo que me compõe? Seria eu merecedor de tantas vezes que sorri? Seria eu o motivo de tantos se afastarem? Seria eu o motivo da guerra ainda existir em mim? Seria realmente eu?
Não me entendia: não conseguia compreender porque sentir o que na verdade não era sentido, por que olhar para o que não existia, porque viver do que de nada favorece a vida, porque sonhar o sonho que jamais fora construído, porque ainda pensar que voltaria o que a morte já dissipou?
                - Ah... (Suspiro!)
                Levantei, passei a mão direita vagarosamente sobre a base da janela e espalhei as lágrimas sobre ela. A felicidade havia partido, ou na verdade nunca com ela havia eu encontrado. A existência daquela dor e o seu caminhar por minhas veias sanguíneas me movimentavam conforme sua dança espinhosa em meu coração. O inquietamento promovente pelo pulsar do coração mais desta dor me consumia.
                Era notório sentir o que não sabia que sentia.
                Era estupidez insistir em continuar num trajeto que em nada me levaria.
                Passei a mão, desta vez a esquerda, por minha face e sentei ao chão por abaixo da janela. Posicionei a cabeça sobre os joelhos e fechei meus olhos. Os sentimentos estavam entrando em um conflito instantâneo e brincando comigo mais uma vez. Após o trajeto anual, a dor novamente parava e se calava de forma que se escondia de mim. Passava por todo meu corpo para interferir em todos os outros sentimentos e banalizá-los.
                Ouvia o som forte da chuva que havia chegado sobre o asfalto. A luz que entrara pela janela provinda do poste já não era vista. Estaria eu em profunda escuridão ou seria o momento exato para nova luz procurar acender? Mas a escuridão me envolvia, me escondia, aos poucos me deixava mais apto a me olhar, a me sentir.
                Uma mão leve toca em minha face, acaricia meu lábio inferior e ouço entre um balbuciar:
                - Vai ficar tudo bem...

                Levantei assustado, porque a voz era a minha! Acendia a luz do quarto, porque a voz era a minha! Sequei as tantas lágrimas, porque a voz era a minha... Eu me permitia! Eu me confortaria! Eu conseguia insistir mais uma vez em mim, e sorri.


Por: Wesley Carlos